Crônica – Surto Criativo

           A vida no ateliê arrastava-se em dias iguais. Lá dentro a ordem das coisas e um leve cheiro de mofo denunciavam a inércia em que viviam ultimamente pincéis , telas, tintas e ferramentas, nitidamente entediados em sua improdutividade.
            Ironicamente o que desencadeou a mudança foi um roubo de tintas. Alguém, aproveitando-se do abandono em que vivia o  local furtou sorrateiramente materiais.
            A artista enciumada e chocada com tamanha ousadia não parava de repetir: “deixaram o rádio, mas levaram minhas tintas, o verde, o branco, o verniz”.
            Aquilo foi demais para ela. Acometida por um surto criativo tem produzido compulsivamente. De vez em quando um olhar zeloso para as tintas para ver se não está faltando nenhuma cor.
            No ateliê, tintas, telas , pincéis e ferramentas hoje balançam alegremente ao som de música boa, espalhados em cada canto daquele caos artístico, numa bagunça boa de se ver.