Crônica – Sorriso de lâmpada acesa

O cochilo no meio da tarde foi interrompido gradualmente, conforme o retumbar das marteladas invadia sua cabeça, começando baixinho, longe e aumentando de volume até despertá-lo de vez. Uma reforma acontecia no andar de baixo e o barulho ensurdecedor estava afetando seu humor sensivelmente. As marteladas ritmadas e ininterruptas faziam sua cabeça tremer. Ele respirou fundo, fechou os olhos e tentou inutilmente pensar em algo agradável, mas acabou por se lembrar do que havia acontecido até aquele instante.

Logo pela manhã, havia pressentido as nuances daquele dia insólito. Ele era notívago, a noite lhe inspirava arroubos criativos e como consequência, sempre dormia tarde, acordava atrasado, saia correndo e justamente naquela manhã, no meio da correria deu uma topada na mesa em sua sala, assustando o gato que ao levantar-se atravessou seu caminho levando um pisão que o fez gritar. Mau sinal. Chegou a se perguntar, se quando um dia começava assim não seria melhor voltar para a cama, ler um bom livro ou mesmo ver um filme na TV. Quase cedeu à ideia, mas a visão das diversas contas vencidas em cima da mesa o fizeram apressar o passo e sair para o trabalho.

O fato é que nosso herói não estava em um bom dia. No princípio da tarde já havia sido demitido de seu cargo de atendente em um restaurante, depois de discutir com um cliente conhecido no estabelecimento pela arrogância e maneira rude com que tratava os funcionários, como também pelas contas astronômicas que pagava e as gorjetas medíocres que distribuía. O fato de ser um cliente rico trazia enorme desvantagem para um funcionário que apenas estava farto de engolir grosserias, sabemos que no mundo capitalista “o cliente sempre tem razão”.

Passada a confusão que culminou com sua demissão, num primeiro momento sentiu certo alívio, que iria durar exatos vinte e dois minutos, sendo interrompido por uma mensagem de cobrança em seu celular. Detestava aquele trabalho, os horários, a rotina. O salário mal dava para pagar as contas, mas estava acomodado naquela falsa segurança. Agora nem isso tinha. Tomado de pânico, voltou depressa para casa e se deitou deprimido, adormecendo em seguida. 

O cochilo interrompido pelas marteladas e a recordação dos incidentes do dia,  fizeram com que seu ânimo despencasse. Resistindo bravamente, levantou-se decidido a sair para caminhar e ao passar pelo portão do prédio encontrou uma mulher que trabalhava como doméstica na casa de um de seus vizinhos. Ela tinha traços fortes e marcas profundas, que refletiam uma vida cheia de dificuldades, mas o que mais chamava a atenção em seu rosto era o enorme sorriso. 

Como de hábito, ela o cumprimentou com um sorriso que parecia iluminar tudo à sua volta, ofuscante como uma lâmpada acesa. Ele por sua vez,  sentiu-se invadido por uma onda de calor e otimismo. Aquela mulher tão sofrida conseguia ser forte e otimista, conseguia sorrir e ser gentil com todos. Parecia não ter medo de nada.

Devolveu o sorriso e comentou algumas bobagens, arrancando dela uma deliciosa gargalhada. Se despediram e ele saiu para a rua. Alguma coisa no sorriso daquela mulher havia renovado suas forças. Ele agora sentia uma inexplicável confiança de que tudo seguiria bem, desde que pudesse aceitar o fato de que a vida nem sempre se apresenta como um cenário claro e colorido; muitas vezes seus tons são sombrios e aterrorizantes; mas se estamos vivos, é porque somos perfeitamente capazes de lidar com todos eles. 

Caminhou pela tarde ensolarada se sentindo em paz, ao perceber que o movimento da vida é parecido com o de uma roda. Pensou nos altos e baixos da vida e na importância de ser como o eixo da roda, que apesar do movimento exterior, permanece no centro, imune ao que acontece à sua volta. E concluiu que aquele sorriso, que havia sido tão importante para o seu dia, era o sorriso de alguém que não julga, não reclama, não desiste, apenas vive de maneira corajosa e gentil. Certamente aquela mulher  notável, em toda a sua simplicidade, sabia ser como o eixo da roda e seguindo seu exemplo, ele se esforçaria para aprender também. Ao pensar nisso, sorriu satisfeito e voltou para casa.